{"id":1434,"date":"2024-07-16T15:13:17","date_gmt":"2024-07-16T18:13:17","guid":{"rendered":"http:\/\/biotasintese.iea.usp.br\/?p=1434"},"modified":"2026-09-17T08:38:41","modified_gmt":"2026-09-17T11:38:41","slug":"custos-e-beneficios-da-restauracao-da-mata-atlantica-ainda-sao-pouco-quantificados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/biotasintese.iea.usp.br\/pt\/custos-e-beneficios-da-restauracao-da-mata-atlantica-ainda-sao-pouco-quantificados\/","title":{"rendered":"Custos e benef\u00edcios da restaura\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica ainda s\u00e3o pouco quantificados"},"content":{"rendered":"<p>Os custos e benef\u00edcios da restaura\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica ainda precisam ser melhor quantificados. Esta foi a conclus\u00e3o de um novo estudo que contou com a participa\u00e7\u00e3o de pesquisadores vinculados ao projeto Biota S\u00edntese, vinculado ao Programa Biota\/Fapesp, publicado na revista Restoration Ecology da Sociedade Internacional para Restaura\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica (SER \u2013 Society for Ecology Restoration).<\/p>\n<p>Intitulado \u201c<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/rec.14161\">Custos e benef\u00edcios da restaura\u00e7\u00e3o ainda s\u00e3o pouco quantificados: evid\u00eancias de uma revis\u00e3o sistem\u00e1tica da literatura sobre a Mata Atl\u00e2ntica brasileira<\/a>\u201d, o estudo se valeu de uma revis\u00e3o sistem\u00e1tica de literatura de artigos publicados em peri\u00f3dicos cient\u00edficos entre os anos de 2001 a 2021 que abordaram diferentes tipos de restaura\u00e7\u00e3o florestal em \u00e1reas previamente degradadas da Mata Atl\u00e2ntica. Os pesquisadores encontraram apenas quinze artigos sobre o tema com informa\u00e7\u00f5es acerca dos aspectos econ\u00f4micos da restaura\u00e7\u00e3o, al\u00e9m dos dados de quantifica\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria dos custos e benef\u00edcios. Dez artigos quantificaram os custos da restaura\u00e7\u00e3o florestal, enquanto sete quantificaram os benef\u00edcios econ\u00f4micos. Por\u00e9m, apenas dois artigos detalharam simultaneamente tanto os custos como tamb\u00e9m os benef\u00edcios. Dos quinze artigos levantados, 11 foram publicados entre os anos de 2018 a 2021.<\/p>\n<p>Para Lorenz Schimetka, da Universidade de Wageningen (Holanda) e autor principal do artigo, o estudo mostra que existe uma lacuna de conhecimento cient\u00edfico sobre os custos e benef\u00edcios da restaura\u00e7\u00e3o florestal. \u201cNa D\u00e9cada da ONU da Restaura\u00e7\u00e3o de Ecossistemas quando governos em todo o mundo assumem (e agem de acordo com) compromissos de restaura\u00e7\u00e3o florestal, \u00e9 muito importante saber quanto custa para tentar cumpri-los. Sem essa informa\u00e7\u00e3o, seria uma jornada rumo ao desconhecido. A mesma coisa se aplica aos benef\u00edcios. Por exemplo, da perspectiva do propriet\u00e1rio \u00e9 interessante saber se h\u00e1 alguma utilidade econ\u00f4mica da terra depois da restaura\u00e7\u00e3o, se existem incentivos e, em caso afirmativo, quais e quanto representa\u201d, explica Schimetka.<\/p>\n<p>O autor pontua, ainda, que a <a href=\"https:\/\/www.biota.org.br\/politica-publica-baseada-em-evidencias-e-foco-de-workshop-do-conexao-mata-atlantica-e-biota-sintese\/\">Mata Atl\u00e2ntica<\/a> \u00e9 um dos chamados hotspots de biodiversidade, ou seja, regi\u00f5es com n\u00edveis altos de biodiversidade que tamb\u00e9m est\u00e3o em perigo devido \u00e0s atividades humanas. Al\u00e9m disso, \u00e9 tamb\u00e9m um hotspot de restaura\u00e7\u00e3o florestal. \u201cA Mata Atl\u00e2ntica \u00e9 um bioma onde a restaura\u00e7\u00e3o florestal j\u00e1 foi bem estudada, gra\u00e7as ao trabalho cient\u00edfico incr\u00edvel que j\u00e1 foi realizado l\u00e1. Isso \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via necess\u00e1ria para fazer uma revis\u00e3o sistem\u00e1tica de publica\u00e7\u00f5es sobre o t\u00f3pico\u201d, destaca Schimetka.<\/p>\n<p>Para os autores, o pequeno n\u00famero de publica\u00e7\u00f5es (15) encontradas n\u00e3o seria um problema se essas fossem mais detalhadas na quest\u00e3o dos custos e benef\u00edcios. \u201cCom algumas exce\u00e7\u00f5es, muitas delas n\u00e3o t\u00eam um foco cient\u00edfico no bioma inteiro ou n\u00e3o distinguem os valores econ\u00f4micos de maneira detalhada, focando, por vezes, em lugares espec\u00edficos e em valores gen\u00e9ricos, isso mostra que o conhecimento cient\u00edfico sobre a rentabilidade da restaura\u00e7\u00e3o florestal hoje \u00e9 limitado (para ser aplicado na pr\u00e1tica)\u201d, explica Schimetka.<\/p>\n<p>Os autores tamb\u00e9m identificaram que os estudos, at\u00e9 o momento, se concentram principalmente nos estados do sudeste, em particular no estado de S\u00e3o Paulo (nove estudos). Minas Gerais contabilizou dois estudos, Esp\u00edrito Santo apenas um e o estado do Rio de Janeiro n\u00e3o aparecia nos artigos selecionados. Ainda que o Sudeste concentre 45% da \u00e1rea de Mata Atl\u00e2ntica brasileira preservada, ela se estende por quinze estados, dos quais nove n\u00e3o estavam presentes entre os artigos selecionados e analisados.<\/p>\n<p><strong>Metas e caminhos da restaura\u00e7\u00e3o no Estado de S\u00e3o Paulo<\/strong><br \/>\nEm 2016, o Brasil assumiu o compromisso de restaurar 12 milh\u00f5es de hectares at\u00e9 2030 ao assinar o <a href=\"https:\/\/www.biota.org.br\/21a-conferencia-das-partes-e-acordo-de-paris\/\">Acordo de Paris<\/a>; j\u00e1 o estado de S\u00e3o Paulo tem como meta a restaura\u00e7\u00e3o de 1,5 milh\u00e3o de hectares at\u00e9 2050, proposta assumida na COP 26, realizada em Glasgow na Esc\u00f3cia. \u201cEsses grandes n\u00fameros com os quais os governos e a sociedade est\u00e3o se comprometendo evidentemente requerem a cria\u00e7\u00e3o de planos e programas fact\u00edveis, o que envolve clareza dos custos\u201d, explicou Rafael Chaves, da Secretaria do Meio Ambiente, Infraestrutura e Log\u00edstica do Estado de S\u00e3o Paulo (SEMIL) e pesquisador do projeto Biota S\u00edntese. \u201cCustos tamb\u00e9m s\u00e3o uma informa\u00e7\u00e3o crucial para financiadores e executores de projetos, j\u00e1 a clareza sobre os benef\u00edcios \u00e9 um motivador fundamental para migrarmos da l\u00f3gica de restaura\u00e7\u00e3o exclusivamente em cumprimento \u00e0 lei para a l\u00f3gica da restaura\u00e7\u00e3o de forma a obter diversos benef\u00edcios econ\u00f4micos, sociais e ambientais, gerando maior engajamento entre os diversos setores da sociedade para que os grandes n\u00fameros virem realidade\u201d, explica Chaves.<\/p>\n<p>Desde a coloniza\u00e7\u00e3o do Brasil pelos portugueses, a Mata Atl\u00e2ntica tem sofrido diversos impactos, sendo considerada a primeira fronteira do desmatamento desde a explora\u00e7\u00e3o do Pau-Brasil e outros produtos florestais. \u201cAtualmente cerca de 70% da popula\u00e7\u00e3o brasileira vive dentro das fronteiras do dom\u00ednio da Mata Atl\u00e2ntica e por isso seus servi\u00e7os ecossist\u00eamicos s\u00e3o destacadamente importantes\u201d, comentou o engenheiro florestal Pedro Krainovic, pesquisador de p\u00f3s-doutorado no projeto Biota S\u00edntese e um dos autores do artigo. Entre os servi\u00e7os ecossist\u00eamicos oferecidos pelo bioma \u00e9 poss\u00edvel mencionar o provisionamento de \u00e1gua e o sequestro de carbono, a prote\u00e7\u00e3o dos solos e da biodiversidade e a poliniza\u00e7\u00e3o, que se relaciona com a produtividade agr\u00edcola. Doutor em Ci\u00eancias Florestais Tropicais, Krainovic tamb\u00e9m acrescentou que outros produtos florestais deste bioma podem dar in\u00edcio a uma cadeia importante de suprimentos de produtos (como madeiras, frutos, \u00f3leos e resinas) que podem gerar emprego e renda.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de melhorar e ampliar os servi\u00e7os ecossist\u00eamicos, os benef\u00edcios da restaura\u00e7\u00e3o de paisagens florestais da Mata Atl\u00e2ntica incluem a possibilidade de elaborar um planejamento para atingir multifuncionalidade, ou seja, quando uma floresta \u00e9 capaz de manter suas caracter\u00edsticas naturais ao mesmo tempo em que possui atratividade econ\u00f4mica para propriet\u00e1rios de terra. \u201cPor exemplo, o Estado de S\u00e3o Paulo \u00e9 o principal consumidor interno de madeira nativa da Amaz\u00f4nia e isso poderia ser gradualmente substitu\u00eddo (ou diminu\u00eddo) mediante a produ\u00e7\u00e3o de madeira nativa da restaura\u00e7\u00e3o planejada da Mata Atl\u00e2ntica, ao mesmo tempo em que se aumenta \u00e1rea de cobertura florestal biodiversa, tamb\u00e9m com provisionamento de servi\u00e7os intang\u00edveis (como sequestro de carbono, prote\u00e7\u00e3o do solo, melhoria da qualidade da \u00e1gua e manuten\u00e7\u00e3o da biodiversidade)\u201d, explica Krainovic.<\/p>\n<p>Rafael Chaves reconheceu que as pol\u00edticas p\u00fablicas s\u00e3o o palco de confronto e tentativa de concilia\u00e7\u00e3o entre as demandas de diversos setores da sociedade: \u201cquando falamos em restaura\u00e7\u00e3o, estamos falando em ocupar uma parte de um territ\u00f3rio que poderia ter diversos usos poss\u00edveis\u201d. Monocultivos agr\u00edcolas, por exemplo, possuem custos e benef\u00edcios conhecidos e bem comunicados devido a sua import\u00e2ncia para a balan\u00e7a comercial no Brasil. Chaves acrescenta que, por outro lado, \u201cdiversas \u00e1reas que foram inicialmente desmatadas para usos agr\u00edcolas est\u00e3o hoje degradadas e com baix\u00edssima produtividade, especialmente em pastagens. A restaura\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode ser, como a agricultura, uma geradora importante de receitas, com a vantagem de recuperar o solo, fixar carbono e oferecer m\u00faltiplos benef\u00edcios ambientais e socioecon\u00f4micos, sem deslocar cultivos agr\u00edcolas produtivos\u201d.<\/p>\n<p>\u201cMapear de modo eficiente os custos e benef\u00edcios da restaura\u00e7\u00e3o \u00e9 uma etapa fundamental para colocar a restaura\u00e7\u00e3o como uma das alternativas eficientes de uso do solo, posicionando-a como elemento estruturante de pol\u00edticas p\u00fablicas ben\u00e9ficas, inclusivas e justas, que gerem receita e oportunidades com responsabilidade socioambiental\u201d, complementa Chaves, e cita como exemplo o programa <a href=\"https:\/\/semil.sp.gov.br\/sma\/programa-refloresta-sp\/\">Refloresta-SP<\/a> promovido pelo estado de S\u00e3o Paulo no qual uma plataforma digital geradora de recomenda\u00e7\u00f5es de Florestas Multifuncionais \u00e9 disponibilizada para propriet\u00e1rios rurais. Esta plataforma indica as esp\u00e9cies com potencial para uso econ\u00f4mico sustent\u00e1vel que s\u00e3o adaptadas \u00e0 regi\u00e3o pesquisada. \u201cO propriet\u00e1rio rural monta uma combina\u00e7\u00e3o de seu interesse e visualiza quanto vai custar implantar e qual \u00e9 o retorno esperado ano a ano\u201d, explicou. \u201cEsse \u00e9 um caso no qual os custos e alguns dos benef\u00edcios s\u00e3o sistematizados e comunicados de modo a ajudar quem toma a decis\u00e3o de como usar suas terras a entender como a restaura\u00e7\u00e3o pode gerar renda e ao mesmo tempo melhorar a qualidade ambiental\u201d, finaliza Chaves.<\/p>\n<p><strong>por Pedro Duarte<\/strong><br \/>\n<em>Formado em Jornalismo pela FAAP, est\u00e1 cursando a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Jornalismo Cient\u00edfico pelo Labjor Unicamp. Faz est\u00e1gio no Biota S\u00edntese por meio da bolsa M\u00eddia Ci\u00eancia de Jornalismo Cient\u00edfico concedida pela FAPESP.<\/em><\/p>\n<p><strong>Artigo completo (acesso livre):<\/strong><br \/>\nSchimetka, L.R., Ruggiero, P.G.C., Carvalho, R.L., Behagel, J., Metzger, J.P., Nascimento, N., Chaves, R.B., Brancalion, P.H.S., Rodrigues, R.R. and Krainovic, P.M. (2024), Costs and benefits of restoration are still poorly quantified: evidence from a systematic literature review on the Brazilian Atlantic Forest. Restor Ecol, 32: e14161. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/rec.14161\">https:\/\/doi.org\/10.1111\/rec.14161<\/a><\/p>\n<p>Repercuss\u00e3o na m\u00eddia:<br \/>\n<strong>Folha de S.Paulo<\/strong> &#8211; <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-social-mais\/2024\/07\/custos-e-beneficios-do-reflorestamento-da-mata-atlantica-sao-pouco-conhecidos-aponta-estudo.shtml\">Custos e benef\u00edcios do reflorestamento da mata atl\u00e2ntica s\u00e3o pouco conhecidos, aponta estudo<\/a><br \/>\n<strong>Ag\u00eancia Fapesp<\/strong> &#8211; <a href=\"https:\/\/agencia.fapesp.br\/custos-e-beneficios-do-reflorestamento-da-mata-atlantica-ainda-sao-pouco-conhecidos-aponta-estudo\/52210\">Custos e benef\u00edcios do reflorestamento da Mata Atl\u00e2ntica ainda s\u00e3o pouco conhecidos, aponta estudo<\/a><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os custos e benef\u00edcios da restaura\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica ainda precisam ser melhor quantificados. 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