Jean-Paul Metzger conecta pesquisa ecológica e políticas públicas para adaptação em tempo de policrises.
Assim como uma pessoa pode fazer um exame de sangue e usar uma diversidade de parâmetros para avaliar a saúde, indicadores como a acidificação dos oceanos, o aquecimento e o teor de aerossóis e de ozônio na atmosfera permitem um diagnóstico planetário. A partir disso, o ecólogo Jean-Paul Metzger, da Universidade de São Paulo (USP), mostrou que estamos saindo da zona segura para uma zona de alto risco: a ação humana modificou o planeta a caminho de uma zona sem retorno. “Estamos em tempos de policrises”, resumiu, em palestra no último dia da programação científica da 78ª Reunião Anual da SBPC (31/7).
O pesquisador mostrou que alterações como a mudança na ocupação dos solos formam um efeito cascata, conectando fatores como a biodiversidade, a disponibilidade de água, a segurança alimentar, a saúde humana, as mudanças climáticas e outros. As soluções precisam, por isso, levar em conta o conjunto. “Não queremos solucionar um problema e criar outro”, disse Metzger. As florestas, por exemplo, têm efeito positivo tanto na captura de carbono quanto na manutenção da biodiversidade. Plantar monoculturas pode potencializar a absorção de carbono, já que são plantas de crescimento rápido, mas é prejudicial à biodiversidade. E perder diversidade biológica causa outros problemas.
“Adaptar-se às mudanças climáticas não é mais uma escolha, mas uma necessidade crítica para proteger vidas e preservar meios de subsistência”, disse o ecólogo, que propõe promover ações para aumentar a resiliência e a adaptação. A resiliência, ele explicou, é a capacidade de um ecossistema de se modificar em função de uma perturbação e ainda voltar ao equilíbrio anterior. Quando a perturbação excede a capacidade de resiliência, porém, há uma mudança de estado – como um campo que se torna deserto.
A questão é saber qual é o limiar que conduz ao ponto de não retorno. Na Mata Atlântica, um estudo de alguns anos atrás mostrou que, à medida que a floresta é retirada, a comunidade se mantém íntegra até certo ponto, depois do qual perde espécies de forma abrupta. Esse valor varia conforme a qualidade da floresta presente. Como, em geral, não se sabe qual é esse limiar, ou qual porcentagem de floresta é fundamental manter, é preciso planejar com uma margem de segurança.
A adaptação deve acontecer em diferentes momentos no tempo. Sistemas de vigilância sanitária e de alertas antecipados sobre condições climáticas perigosas, por exemplo, permitem agir antecipadamente para evitar maiores problemas. Outras ações são adequadas para momentos durante ou depois da perturbação, com uma combinação de processos naturais e socioeconômicos. Ele exemplificou com as enchentes que ocorreram no Rio Grande do Sul em 2024: depois delas, mesmo que áreas sejam reparadas, alguns locais se revelaram vulneráveis e não estarão seguros. “Vamos ter outro ano de forte efeito El Niño, que já começou. Precisamos aumentar a capacidade preventiva de lidar com eventos e as pessoas não deveriam viver em áreas de risco.”
Este ano, o governo federal lançou o Plano Clima, um planejamento intersetorial de 10 anos que envolve aspectos como agricultura, biodiversidade, cidades e saúde, com metas e ações práticas de mitigação e adaptação. “O plano é interessante, porque, apesar de focado no clima, é policrise e entende que precisamos lidar com os efeitos cascata”, disse Metzger. O comitê interministerial sobre mudança do clima inclui diferentes setores, entre os quais um comitê científico do qual ele faz parte. “O plano foi construído de forma colaborativa, com setores da sociedade olhando em detalhe a parte de adaptação e propondo objetivos, metas e indicadores”, contou.
Existem recursos que ajudam no planejamento. O Sistema de Informações e Análises sobre Impactos das Mudanças do Clima (AdaptaBrasil), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), por exemplo, tem uma plataforma com dados de todos os municípios brasileiros e mapeia o risco climático, que envolve a probabilidade da ocorrência de um evento climático, índices de vulnerabilidade e outros fatores combinados. “O diagnóstico permite enxergar quais são os problemas e onde é preciso agir.” Pensar nas cidades é fundamental, já que 84% da população brasileira é urbana. O problema é que a maior parte dos municípios não tem planos de redução de risco, portanto, não tem condições de lidar com a crise climática.
É nessa ótica que Metzger propôs um projeto na chamada Biota Síntese do programa Biota da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), em parceria com o ecólogo Rafael Chaves, da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil) do estado de São Paulo. “É um projeto de cinco anos, com coordenação acadêmica e técnica, para navegar nessa intersecção entre sínteses científicas e desenho de políticas públicas por meio da abordagem de síntese transdisciplinar de coprodução para potencializar soluções baseadas na natureza.” A ideia é estimular que participantes de várias áreas – como arquitetura, engenharia, saúde pública, direito e biologia – analisem dados já existentes e pensem de forma integrada, chegando a conhecimentos que não se criariam em um paradigma disciplinar. “É uma incubadora de boas ideias para chegar a novas soluções para problemas ambientais de São Paulo.”
Um conjunto de estratégias foi publicado por meio de uma nota técnica, que, segundo ele,
tem muito mais poder transformativo do que os artigos científicos, que costumam ser a produção reconhecida no meio acadêmico. “A nota técnica responde a demandas da sociedade em linguagem mais acessível, coproduzida por pessoas do governo, da sociedade – por meio de organizações não governamentais – e da academia. Uma segunda nota técnica sobre financiamento para restauração deu origem ao Finaclima, um mecanismo de captação de recursos criado pelo governo paulista em 2024.
Outro resultado foi entender que os limites urbanos, ou área periurbana, são pouco utilizados para a restauração florestal e são, na verdade, cruciais para capturar carbono e minimizar eventos de inundação ou deslizamento. “É preciso aproximar as ações de onde as pessoas vivem, mas dentro das cidades não tem espaço e é muito caro”, explicou Metzger. O estudo apontou 300 mil hectares de áreas com potencial de restauração, que teriam efeito positivo para a população urbana. Ficou claro que o encontro entre pesquisa científica, sociedade e políticas públicas é cada vez mais crucial para fazer frente à crise ambiental.
Maria Guimarães – Jornal da Ciência
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